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domingo, 11 de março de 2012

Sabedoria

Tu que vives e passas, sem saber
O que é a vida nem porque é, que ignoras
Todos os fins e que, pensando, choras
Sobre o mistério do teu próprio Ser,

Não sofras mais à espera das auroras
Da suprema verdade a aparecer:
A verdade das cousas é o prazer
Que elas nos possam dar à flor das horas...

Essa outra que desejas, se ela existe,
Deve ser muito fria e quase triste,
Sem a graça encantada da incerteza

Vê que a Vida afinal, - sombras, vaidades -
É bela, é louca e bela, e que a Beleza
É a mais generosa das verdades.
* Poema do livro "Luz Mediterrânea". De Raul de Leoni. 1922.

Esse poema é uma clarividência. Não procuremos certezas. Deixe-as com as ciências. Procuremos a beleza e o seu prazer! Leoni é um arquiteto dos templos helênicos. Mestre do ritmo. Ideias claras e evidentes. Com uma sabedoria suave e elegância clássica. O título do livro entrega sua devoção à terra das grandes epopeias. Há uma discussão inútil sobre sua escola. Parnasiano, simbolista ou moderno? "Esse poeta não fará escola. Demasiado civilizado, sua aristocracia cultural há de marcá-lo e isolá-lo": Drummond. Todas escolas o veneravam. Seu frescor o fará imortal. Musicalidade espontânea. Simples e doce. Tudo é perfeito. Flui. Comunica-se com facilidade. Amante da beleza. Do equilíbrio e da contemplação. "Alma de origem ática e pagã" como ele se define no Pórtico de seu único livro. Morreu jovem aos 31 anos. De alma solitária como todo panteísta. Falta-lhe reconhecimento. Grande poeta e um dos gigantes do soneto na língua portuguesa. Falta-lhe justiça por sua bela arte.