Mostrando postagens com marcador Cesar Vallejo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cesar Vallejo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 19 de março de 2012

Os Arautos Negros

Há golpes na vida, tão fortes... Eu não sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se diante deles
a ressaca de todo o sofrimento
se empoçasse na alma... Eu não sei!

São poucos, mas são... Abrem fendas escuras
no rosto mais fero e no dorso mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos manda a Morte.

São as quedas profundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que se queima na boca do forno.

E o homem... Pobre... pobre! Volve os olhos, como
quando alguém bate as mãos por trás de nós;
vira os olhos loucos, e tudo que foi vivido
se empoça, como charco de culpa, no olhar.
Há golpes na vida tão fortes... Eu não sei!

* Poema do livro "Os Arautos Negros". De Cesar Vallejo. 1919. Tradução de Thiago de Mello.


Image

sexta-feira, 9 de março de 2012

Os dados eternos

Para Manuel González Prada, esta emoção bravia e seleta, uma das que, com mais entusiasmo, me aplaudiu
o grande mestre.


Deus meu, estou chorando o ser que vivo;
quanto me dói te haver tomado o pão;
mas este pobre barro pensativo
não fermenta uma crostra no teu flanco:
e tu não tens Marias que se vão.


Meu Deus, se tu tivesses sido um homem,
hoje saberias ser Deus;
tu, porém, que estiveste sempre bem,
nada mais sentes de tua criação.
Mas o homem, sim, te sofre: o Deus é ele!


Hoje que há chamas nos meus olhos bruxos
como nos de um condenado,
Deus meu, acenderás as tuas velas,
e jogaremos com o velho dado...
Talvez, oh jogador, lançada a sorte
do universo inteiro,
as olheiras da Morte surgirão
como dois azes fúnebres de lodo.


Deus meu, e nesta noite surda, escura,
não poderás jogar, porquanto a Terra
é um dado corroído e já redondo
de tanto haver rolado na aventura,
que já parar só pode num buraco.
no buraco de imensa sepultura.


* Poema do livro "Os Arautos Negros". De Cesar Vallejo. 1919. Tradução de Thiago de Mello.