Para Manuel González Prada, esta emoção bravia e seleta, uma das que, com mais entusiasmo, me aplaudiu
o grande mestre.
Deus meu, estou chorando o ser que vivo;
quanto me dói te haver tomado o pão;
mas este pobre barro pensativo
não fermenta uma crostra no teu flanco:
e tu não tens Marias que se vão.
Meu Deus, se tu tivesses sido um homem,
hoje saberias ser Deus;
tu, porém, que estiveste sempre bem,
nada mais sentes de tua criação.
Mas o homem, sim, te sofre: o Deus é ele!
Hoje que há chamas nos meus olhos bruxos
como nos de um condenado,
Deus meu, acenderás as tuas velas,
e jogaremos com o velho dado...
Talvez, oh jogador, lançada a sorte
do universo inteiro,
as olheiras da Morte surgirão
como dois azes fúnebres de lodo.
Deus meu, e nesta noite surda, escura,
não poderás jogar, porquanto a Terra
é um dado corroído e já redondo
de tanto haver rolado na aventura,
que já parar só pode num buraco.
no buraco de imensa sepultura.
* Poema do livro "Os Arautos Negros". De Cesar Vallejo. 1919. Tradução de Thiago de Mello.

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