terça-feira, 13 de março de 2012

O Espelho do Guarda-roupa

II


Um homem
com um espelho (feito
um segundo esqueleto)
embutido no corpo
não pode
bruscamente voltar-se para trás
não pode
juntar nada do chão
e quando dorme
é como um acrobata
estendido sobre um relâmpago


Um homem com um espelho
enterrado no corpo
na verdade não dorme: reflete
um vôo


Enfim, esse homem
não pode falar alto demais
porque os espelhos só guardam
(em seu abismo)
imagens sem barulho


* Poema do livro "Na Vertigem do Dia". De Ferreira Gullar. 1980.


Nenhum comentário:

Postar um comentário