domingo, 4 de março de 2012

Pensando sobre o diálogo

A linguagem é a nossa tragédia. Que faculdade inútil. Conversar é perda de tempo. Tudo por que a linguagem é a única maneira de transcender o silêncio do mundo. Mas o mundo de palavras não tem nada. Não há correspondência. Necessariamente não há. Adapte uma árvore a um texto! Linguagens diferentes. A linguagem do mundo? O mundo está além das linguagens. Mas a nossa – ou as nossas – são a única forma de olharmos prá ele. De falarmos dele, de nós, de nossas naturezas. Essa falta de correspondência cria o engano. Somos subjetivos. Quando falamos, falamos sempre de nós. É sempre uma tentativa. 

Antes não existisse linguagem. Seríamos mais honestos. Menos verborrágicos. Menos falastrões. Sobram signos, idéias, significados, imagens. Só precisamos de um pouco mais que um sim ou não. E nossas profundezas continuariam intocadas como são e sempre serão. Seríamos menos artificiais. Menos cheios de conceitos nos orientando. Nos criando e nos confundindo. "O amor deve ser amor. Se não é, o que vc sente não é amor". O que é o amor? Quem perderá seu tempo dicutindo? Precisamos caber em nomes. Antes nada disso existisse. Seríamos livres! Livres da ilusão de compreensão do mundo e de nós. Livres apenas para existir. Comunicação com os olhos, gestos, sons. Falamos demais. Disseram que quanto mais conversamos mais chegamos ao entendimento. Bem, há séculos de palavras ao vento e um entendimento para cada dez desentendimentos. Das reuniões, saem mais inimigos do que entram. E esses que se entendem apenas cedem a voz mais bela, rica e articulada. Ou que trazia o bolso cheio de dinheiro. Ou trazia uma arma. Isso é entendimento! Entre pessoas. Entre nações.

Nunca vi se desintenderem, pessoas que não se conheceram. Não conversaram. A chance de se odiarem é grande caso se encontrem. Basta discordarem sobre a cor do chapéu do homem ao lado. E esse discordará também. Na linguagem há milhões de nomes prá uma coisa só. E milhões de nomes para cada um desses milhões. E se dez ouvirem cada milhão, cada um fará seu entendimento. Babel, não é? E Deus? Judeus, católicos, islâmicos, budistas... todos gritam: só o meu!. Como é possível? Linguagem! As maiores violências são consequências de palavras trocadas com violência antes. Tolerância? Peça tolerância a um leopardo. A uma formiga. Um peixe. Discordar, se opor e guerrear é sobre-humano. Mas bichos se opõem por comida e sexo. Nós inventamos um milhão de motivos para brigar. Linguagem!

Quanto mais se conversa, mais há engano. Somos presos à linguagem e ela não nos dá um mundo além do que está aí. Nosso arcabouço linguístico é a base do mundo que criamos. Do que inventamos. Nada tem haver com a natureza. A única verdade. Então não perco o meu tempo. Conversar é dar voltas no universo das significações. Uma dança infinita. Um giro estéril que nunca sairá de sua própria condição contraditória. Que nunca transcenderá. Uma grande viagem pela própria criação humana.

A poesia é o regozijo na linguagem. Não espera correspondência. Não é verdade. É arranjo de sons e sentidos. De instrumentos ou da voz. A mudez do piano não é maior que a dos versos. Linguagem como beleza que cria significados. Não os retira da natureza. Poesia não se explica nem é negociada em debates. É a própria natureza criada pelo homem e paralela à sua. É o silêncio das palavras. Amorfa e fiel ao seu mistério.

É sobre isso que escrevo.

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