para Beatriz Mendes Danesi
I.
Hoje está tranquilo… Na janela, o rio,
leva um pouco de lama da tarde.
Um peixinho rabisca um salmo na minha mão.
O tempo solta plumas na sala vazia.A correnteza leva
a marca do vento e o meu peito que bate devagar.
Caminho com as mãos cheias de ar. Como duas cenas da infância.
Um passarinho brinca. Que frio!
Como um século depois dos séculos,
olhando um quadro sem fundo.
É tão triste essa brincadeira de pôr cinzas na grama.
Minha mão no rio é o rabo de uma patinho. Minha foto é sinal de chuva.
Mas minha foto devagar, feito um frio que queima,
não chove.
E fiquei perdida no deserto.
Uma árvore empalidece e desmaia bem ao meu lado.
Olho minhas unhas. As pontas dos dedos roxas.
É um sonho? Meus olhos têm água nas fontes.
O rio insiste comigo, no reflexo de uma nuvem.
II.
Uma folha faz o caminho inverso e volta pra mamãe-tronquinho.
Uma nuvem ronca pra mim.
Que sono gostoso no céu. Azul de saudade eterna.
Voar é vontade de morrer.
À direita fica o rosto da minha mãe. Faz 15 anos.
Não faz mal. Ela ainda tem as guirlandas de vento que eu fiz prá ela
ontem à noite.
Todo dia ela me carrega na foto. Como fazia calor! Mês das folhas.
Papai aparece de dois em dois anos no reflexo do rio.
Faz muito frio e os patos ficam de guarda. Esperam que eu me troque.
Ele desce das praias e me abraça com elas.
Termina desenterrando meus cabelos. Sempre! Faz que chora e sorri todo espertão!
Quando vai, leva uma árvore ao meu lado.
III.
Passa um raio anunciando.
Viro o rosto devagar pra não perder
a curva do instante no nariz.
Pego meu espelho que se afasta. Tenho 60 anos. Uso um chapéu azul. Estou sorrindo.
Estou sempre sorrindo.
Faltam dois dentes. Mas sorrio assim mesmo.
Tenho 4 anos e já tenho lembranças de mim.
Há vinte anos cheguei aqui…
Não existiam essas bananeiras nem essas mangueiras com cara de cavalo.
Meu vento, que se dizia vento, é um sopro que aprendi sozinha.
Meu hálito ficou na memória. Na pasta de hortelã depois do almoço.
Já não me lembro da pia, do azulejo verde. Eu escrevi meu nome nele.
Escovando a boca com o dedo.
Hoje me caso comigo mesma. De brincadeira.
Meu brinquedo é fazer correr o rio. Os donos do tempo.
Os mestres derramando histórias dentro de mim.
Mas eu sorrio!
Lento… lento…
Olhando bem, o rio para e a terra é que me leva.
Atrás de mim, besouros e uns rabiscos meus,
sopram fazendo vento... vento...
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ResponderExcluir!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ResponderExcluirNossa... Lindo...
ResponderExcluirTambém gostei desse. Ainda mexo nele de vez enquando.
ResponderExcluirVocê é sempre uma inspiração, minha linda. Para tudo que eu faço.