quarta-feira, 14 de março de 2012

Uma Temporada no Inferno

Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde se abriam todos os corações, onde todos os vinhos corriam.
Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. - E achei-a amarga. - E injuriei-a.
Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó feiticeiras, ó miséria, ó ódio, a vós é que meu tesouro foi confiado.
Consegui fazer desvanecer-se em meu espírito toda a esperança humana. Sobre toda alegria, para estrangulá-la, dei o salto surdo da fera.
Chamei os carrascos para, perecendo, morder a coronha de seus fuzis. Chamei as calamidades, para me sufocar com a areia, com o sangue. O infortúnio foi o meu deus. Estendi-me na lama. Sequei-me ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
E a primavera me trouxe o pavoroso riso do idiota.
Ora, muito recentemente, quando eu estava quase nas últimas, pensei em procurar a chave do antigo festim, onde eu recobraria talvez o apetite.
A caridade é essa chave. - Esta inspiração prova que sonhei.
"Permanecerás hiena, etc..." exclamou o demônio que me coroou de tão gentis papoulas. "Ganha a morte com todos os teus apetites, e o teu egoísmo e todos os pecados capitais."
Ah! foi o que fiz e por demais! - Todavia, caro Satã, por favor, tende para mim um olhar menos irritado! e enquanto ficais à espera de umas tantas covardiazinhas em atraso, e já que apreciais no escritor a ausência das faculdades descritivas ou instrutivas, destaco para vós estas poucas hediondas folhas de meu caderno de réprobo.

* Prólogo de "Uma Temporada no Inferno". De Jean-Arthur Rimbaud. 1873. Tradução de Lêdo Ivo.

Anotações do meu diário sobre como conheci Rimbaud:
"Fatos desconcertantes sucederem-se nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro até esse dia 13 chuvoso. Encontrei a harmonia e a frequência flutuante dos códigos secretos da vida. As relações e tensões por detrás do dia a dia fino e turbulento que tanto ocupa todo mundo. E foi, levado pelas mãos dos versos, ao som da métrica - senhora do meu sonho de artífice – que irrompe de uma lápide quente um tal Rimbaud. Sem métrica. Foi numa visita a um sebo. A Jú [uma ex namorada] havia feito o convite. Então estávamos lá quando ela me joga nas mãos o Temporada no Inferno. "Dá uma sacada nisso". Foi o canto que saiu da lápide e me achou com as antenas sensíveis lá no centro da cidade. Li a primeira parte num engasgo. O sebo ia desabar. Preso na minha realidade olhando pela janela aquela poesia do inominável. As janelas davam para uma prosa. Mas de muita poesia! Rebelde! Furiosa! Eu lia o que ouvia em Beethoven! Ali estava o desespero da "Appassionata". A verdade é que um elemento grudou às minhas mãos e me subiu até os cabelos. Para além do verso livre da "Canção de Mim Mesmo" ou de "O Guardador de Rebanhos", a prosa poética! Qualquer verso virava um versinho perto da prosa de Rimbaud. Lembrei-me de Paulo José declamando "Pessoal Intransferível" do Torquato Neto e o chão se abriu: "difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia", "menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes". Aquilo foi direto no minha testa! Fazer poesia com força, vigor, raça, violência. Direta e ao mesmo tempo profunda! Atenta! Esse elemento químico nunca mais saiu do meu coração e sobreveio à claridade das minhas inspirações.

Nenhum comentário:

Postar um comentário