segunda-feira, 2 de abril de 2012

Uma experiência

I
Certa vez...
Não estou na verdade certo de ter sido um vez certa. Acho que talvez apenas uma vez como outra qualquer.
Uma vez como outra qualquer senti um sopro em minha orelha. Dirigi-me a um homem que vinha:
__ Sei que não pode ajudar-me, mas o que significa esse sopro?
__ Como sabes que eu não posso ajudá-lo?.
__Se está aqui é pq não sabe, se soubesse já teria chegado!
O homem foi-se calado. Eu por minha vez... pensei: Como sei que no fim há uma resposta? Pq falei do que não sabia? De onde tirara a minha resposta?
...Retorna-me o homem. Vinha do mesmo lugar-nenhum:
__ Pois bem, o senhor disse-me que não saberia respondê-lo. Pq perguntara-me então?
__ Para distrair-me! e valeu-me! não me importa mais o sopro e foi a tua custa!..
__ É uma pena, pois de onde eu venho um sopro não é mistério.
__ É prá lá que eu vou amigo! Não preciso de ti para adiantar-me nada!
__ Quando souber a resposta fará com eu, voltará!
__ Isso aqui não dá em lugar nenhum, companheiro!
__ Então o que vais fazer em lugar nenhum?
__Vou prá contrariá-lo! Alguém por acaso vive para morrer, ainda que caminhe para a morte? Tudo existe porque sim! Isso é a verdade! Se vou, vou!
Parei para lembrar-me de algo e duvidei ter esquecido alguma coisa. Pensei voltar.

II
__Maria! Vê os homens conversando? Olha bem e adivinha o que é!
Maria olhou a janela e viu o olho de Manoel prá lá. Sentado no banco:
__É um sonho!
Olhou Manoel.
E Manoel riu:
__Assopra Maria, assopra!

III
__Mas Manoel, o que é?
Maria quem respondeu:
__Manoel não quer nada. Nem de dinheiro precisa!
Manoel olhava os dois conversando. Não pensava. Nem sabia se pensava, o que era um alívio. Olhava com o corpo todo. Antes estranharia aquilo, mas agora? Agora Manoel ria! Uma risada em cima da conversa dos dois (se é que eram dois, se é que conversavam, se é que havia o que conversar, se é que estavam ali). Manoel não era Manoel! Era o louco que doía na cabeça de Maria. Ninguém mais entendia Manoel e nem ele entendia, o que era um alívio. Manoel queria falar, queria explicar, queria pensar mas sem pensar... como explicar? Pensava naquilo, sem pensar e ria! Ria sozinho e ria prá valer! Ria dele, ria de Maria, ria do cachorro... soprava e batia as mãos na orelha espantando um inseto.
__Meu senhor! Por que ri tanto?
__Rio poqrue rio! Alugém, por acsao vevi para morrer, anida que canimhe para a motre? Tudo esixte prouqe sim! Isso é a vredade!
__Mas a verdade não existe, meu senhor! É um conceito inimigo do progresso pois leva-nos a acreditar que alcançando-lhe os pés chega-se à perfeição e o desenvolvimento cessa! Na mudança não há verdade e tudo é mudança. Ainda que cada palavra guarde uma verdade...
Manoel, muito brincalhão, sopra a orelha do triste senhor e com cara de quem sabe tudo nessa vida, chama Maria e vai.
__Ah! Acordou, é?!
Manoel balança a cabeça pensando que Maria não entende nada mesmo. Olha a conversa lá longe e acena! A conversa não pára prá Manoel, não pára prá nada! Nem sabe que Manoel existe, que deixou de existir e que existia de novo.
__Como se eu entendêsse - olhando prá Maria com ternura e curiosidade.

IV
Ainda que cada palavra guarde uma verdade...
Mas há verdades demais para cada palavra! Há mais palavras no mundo que coisas e mais coisas dentro de cada palavra que qualquer número de palavras.
Os Manuéis, uma ou duas pessoas que conversam, ou nenhuma! O fim provisório das coisas provisórias e o sem fim das coisas sem fim. Entre o que é verdade por que não pode ser e o que é verdade pq simplesmente deveria ser.
Ah! Uma gota corre esparsa na massa de ar e umedece os teus cabelos. Esses olhos são seus? Sua sombra? Seu hálito cansado? Você que é o que me internesce. Que me odeia. Porque essa umidade correndo sobre a face, Maria? Quem é esse senhor, Maria?
Eu devo ir a lugar nenhum para conhecer os meus sentidos das coisas e começar a ter algumas razões... Mas quando chegar vou voltar. Vou voltar para continuar a ser o mesmo, o que é um alívio! Quando chegar, acordarei a verdade com um sol na mão e farei com que brilhe sobre uma mesa posta. Vive posta! Derrubarei todos os altares, todas as colunas, todas as verdades para reconstruir o vazio.
Tudo no seu lugar para que nunca volte a ser como antes! Assim, voltarei e direi ao homem que não crê: "Quando souber a resposta fará como eu, voltará!".
Manoel ia passando:
__Eu o conheço? Não estava com alguém logo ali?
__Sim, acabei de chegar, mas não havia ninguém lá! Prá falar a verdade, eu não estava lá! Não me amole, por favor!
Manoel coçou a orelha e ficou ali; olhando aquele senhor com cara de perdido, pensando sem nenhum pensamento.
_Como é que faz, Manoel?

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