Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.
* Trecho de "Perto do Coração Selvagem". De Clarice Lispector. 1943.
Clarice Lispector! Não, ela não é má. Não é doente. Não há nada de bruxaria. Ela é um espasmo poético. É regozijo e êxtase. Ela não sabe o que fez. Sua lição. Sua renúncia levou-a a si mesma. Foi ferramenta do espírito das mãos. Ela está além do humor. Além da gravidade trágica que rói os tecidos da nossa existência. Além dos destinos e dos nascimentos. Além da felicidade ou da tristeza. É onde a eternidade encontra a morte. É contradição. Vida pura. Introspectiva? Ela engolfa-se em si, é verdade. Mas não se esconde. É aberta para dentro. E o que traz dessas galerias, tateando o breu dentro de si, somos nós. Nossos fetos. Alguns mortos. Clarice nos traz calada. Sua verborragia é litúrgica. Ela precisa instaurar o caos para alcançar essa harmonia estranha. É difícil falar desse silêncio. O silencio dentro da gente. Explosões silenciosas que não cabem nas frases. Tudo é grande e esmagadoramente bom. Inexplicavelmente bom. O papel do poeta hoje é falar o mínimo possível. Entre inúmeras galés encalhadas no mar de seiva psicosomática de nossas memórias, medos, expectativas. Lá está Clarice, sem bússolas, armada de lirismo. Cortando entendimentos no seu barco suicida. Brigue profético em círculos. Vai onde não alcançam as coordenadas. Às plagas mais distantes dentro dela. Difícil falar da Clarice. Aberta como o mar. Esse outro pélago de espumas flutuantes. Desde a aurora dos povos cantado pelos poetas. Cova de pescadores. Flebas, Chico Ferreira e Bento. Suas leituras perdem-se de vista. Se o chincol tira sua flauta da eternidade da água, como disse Neruda, Clarice tira a sua do mar salgado.

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