quinta-feira, 8 de março de 2012

Ruína

Um monge descabelado me disse no caminho: "Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado.

* Poesia do livro "Ensaios Fotográficos". De Manoel de Barros. 2000.

Primeiro texto que li de Barros. Poesia do verbo que delira. Torce a gramática e depois a coloca em prosa simples. Quase causo. Um segredo seu é contar ao invés da cantar. Era para ser hermético e não é. Parece brincadeira. "Vamos fazer de conta que aquele rio é uma cobra". E atravessamos o espelho feito crianças. Pisamos no seu chão cheio de criaturinhas bizarras. Logo estamos entendendo uma língua que não conhecemos. Uma linguagem insólita. Uma poesia intensa. Frases pelo avesso. Impossíveis. Estamos entendendo sem dificuldades. Com um sorriso de barro nos olhos. Tudo é evidente. É espantoso. É o maior poeta vivo da pátria língua portuguesa. Enigmático e inexplicavelmente fácil.

"Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira". (Manoel de Barros)


Um comentário:

  1. Manoel veio à mim em formato de um documentário. Depois não me contive em viver sem ele. Fiquei em total abstinência e procurava-o em toda parte. Acho que desde esse dia trabalho para ficar fluente em idioleto manoelês arcaico. Impossível não se apaixonar por Manoel de Barros. As poesias dele são meu vicio confessável. ♥

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