quinta-feira, 15 de março de 2012

Quando Eu Morrer...

Eu morro, eu morro... A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A fresca tarde.
Já não me doura as descordas faces.
Que gélidas se encovam.
(Junqueira Freire).

Quando eu morrer… não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério…
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro a boca libertina.

Ei-la nau do sepulcro — o cemitério…
Que o povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário…
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário…

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas…
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas…

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!…

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito…
E um deles vós dirá: “Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito.”

Outro: “Dei-o a meu pai”. Outro: “Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho”…
… Meus amigos! Notai… bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!…

* Poema do livro "Espumas Flutantes". De Castro Alves. 1870.



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