A quase criação de um (bom) texto
Esta noite, o escritor descansava. Mas, interrompido por melancolia sem remetente, tomou o lápis e trancou-se. Sentou-se à mesa, pensou as ideias e pousou-as lentamente sobre o papel. Repetia a operação. Do ar para o papel e do papel para o ar. O texto, de pé sobre a mesa, começava a respirar. Mostrava-se e escondia-se; numa decência que equivalia à nudez do mundo.
Sob toda a roupa:
a verdade e a mentira.
No texto:
a cumplicidade do artista.
a verdade e a mentira.
No texto:
a cumplicidade do artista.
O escritor desencarnava-se. Virava fumaça e espalhava-se no ar. Caminhava pelo tempo e esquecia-se. De tão distraído, deixava o dia acabar e as palavras, distantes e angustiadas, sem idéias.
O autor insistiu, mas
da pena cansou-se
a contragosto rendeu-se.
da pena cansou-se
a contragosto rendeu-se.
O texto agora, incompreendido, palmilhará aéreo o caminho de volta; irá petrificar-se novamente em objeto.
Da Beleza para a rosa
Do amor para a fotografia.
Sendo por fim esquecido.
Do amor para a fotografia.
Sendo por fim esquecido.
* Poema que escrevi para uma aula de língua portuguesa quando cursava Letras na UFG.
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