eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
* Poema do livro "A Faca Não Corta o Fogo". De Herberto Hélder. 2008.
Tenho dificuldade com os poemas herméticos. São um desafio. Há sempre uma nova leitura. Não têm chão. Hélder é o poeta impenetrável da língua portuguesa. Este, de seu último livro, considero mais "fácil" e "comunicável". A criatividade de Hélder é inegável. Habilidoso e inspirado. Um poeta solitário e difícil mas de criações impressionantes. Sua poesia força novas leituras. Provoca. Exige uma terceira visão. Ou uma não-leitura. É mais música que palavras. Mas é poesia bruta e incandescente.
"Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro”
(Herberto Hélder)
(Herberto Hélder)

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