Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
* Sebastião Alba foi um poeta português. Naturalizou-se moçambicano. Foi jornalista e lutou para descolonizar Moçambique. Foi preso. Foi trancado em hospital psiquiátrico. Fechou as cortinas e voltou pra casa. Virou mendigo nas ruas de Braga. Morou num galinheiro. De costas para o mundo, assobiava Schubert secando uma garrafa de vinho e o whisky dos amigos. "Escrevo com terrível dificuldade: reescrevo, colo, interpolo, publico um poema como quem o espelha. Armo a oficina em qualquer parte, sem tabuleta que o indique. Ninguém sabe, mas ali sua-se". Atropelaram o poeta em 2000. Deixa um bilhete dirigido ao irmão: "Se um dia encontrarem o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá". Uma vida impressionante. Um homem de caráter. Um poeta de sensibilidade. Num mundo onde loucura é chamada sanidade, o lugar dos lúcidos é nas ruas. Ao lado da simplicidade. Fiéis a seus valores. Bêbados que negaram-se a fazer parte da desgraça moral humana.
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
* Sebastião Alba foi um poeta português. Naturalizou-se moçambicano. Foi jornalista e lutou para descolonizar Moçambique. Foi preso. Foi trancado em hospital psiquiátrico. Fechou as cortinas e voltou pra casa. Virou mendigo nas ruas de Braga. Morou num galinheiro. De costas para o mundo, assobiava Schubert secando uma garrafa de vinho e o whisky dos amigos. "Escrevo com terrível dificuldade: reescrevo, colo, interpolo, publico um poema como quem o espelha. Armo a oficina em qualquer parte, sem tabuleta que o indique. Ninguém sabe, mas ali sua-se". Atropelaram o poeta em 2000. Deixa um bilhete dirigido ao irmão: "Se um dia encontrarem o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá". Uma vida impressionante. Um homem de caráter. Um poeta de sensibilidade. Num mundo onde loucura é chamada sanidade, o lugar dos lúcidos é nas ruas. Ao lado da simplicidade. Fiéis a seus valores. Bêbados que negaram-se a fazer parte da desgraça moral humana.

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